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Começou, nesta quarta-feira (11.05), o evento 4º Encontro Técnico de Ataulização . Trata-se de um dos encontros mais importantes de soluções tecnológicas para a produção agropecuária da região do município de Juara (693, 9 km de Cuiabá), no bioma amazônico, região noroeste de Mato Grosso. Nos próximos três dias, estarão reunidos no Centro de Eventos Savoine, algumas das principais referências nacionais em estudos de melhoramento de pastagem para a alimentação do gado, bem como na utilização dessas áreas para produção agrícola de soja e milho, por exemplo. O objetivo é conscientizar produtores rurais e técnicos da área sobre a necessidade de uma produção mais sustentável, de baixo carbono e alinhada com as exigências do mercado internacional, que compra essas commodities de Mato Grosso. 

 


Foto: Fernanda Fidelis/REM MT

 
PRIMEIRO DIA

O primeiro dia contou com palestras de professores universitários, técnicos extensionistas e especialistas do setor. Os produtores tiraram várias dúvidas sobre como melhorar a produção em equilíbrio com a natureza. 

João Luiz, por exemplo, era um dos mais interessados em ouvir os especialistas. A curiosidade não era por menos, já que ele tem um média propriedade em que trabalha com a criação de gado para o corte, e também busca diversificar a utilização da terra, por meio da agricultura. 

"O importante para mim e para os outros produtores é saber como funcionam esses sistemas integrados: qual o tipo de forrageira [espécie de planta que serve de alimento para o gado], que vai satisfazer melhor e a questão de quando vai acontecer o lucro, depois desses investimentos. Nós, que temos propriedade, já temos um certo conhecimento. Aí com essas informações dos especialistas, isso só tem a agregar na nossa atividade", destacou.  

 

Produtor rural faz perguntas durante o evento. Foto: Fernanda Fidelis/REM MT

 

TIME DE CAPINS 

Manoel dos Santos, professor de forragicultura da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), proferiu a palestra "Como ter um bom pasto diferido na seca?". Ele, que estuda plantas forrageiras, pastagens e processos de conservação da forragem, fez uma analogia com o futebol para explicar a importância de diversificar os tipos de capins para o alimento do boi.

"O time de futebol, por exemplo. Você tem uma equipe. Cada integrante dessa equipe possui uma determinada habilidade. Você tem um atacante, um zagueiro, o meio de campo, o goleiro... é a mesma coisa que o pecuarista deveria fazer, montar um time de capins: um capim que brota mais rápido, quando começar a chover; outro que cresce mais no meio do período das águas... então, se ele montar esse time de capins, seu sistema vai ter uma produção de forragem de alimentos mais estável ao longo dos meses do ano", explicou o especialista.

 

 Manoel dos Santos, professor de forragicultura da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) - Foto: Fernanda Fidelis/REM MT

 

Para ele, eventos como esses proporcionam muito conhecimento, para que o produtor trabalhe com mais eficiência na sua fazenda. 

"Para fazer melhorias no sistema de produção, você tem que conhecer. Esse tipo de evento proporciona a possibilidade de sair daqui com um grau maior de conhecimento. Isso é a base para que ele possa chegar em sua propriedade e começar a colocar as tecnologias que vão resultar em melhorias na sua produção", enfatizou.  

Já para Leonora Goes, mestre em Ecologia e profissional sênior do Subprograma Produção, Inovação e Mercado Sustentáveis (PIMS) do Programa REM Mato Grosso, o evento traz de novidade as atualizações de tecnologias na área de integração pecuária-lavoura.  

 “O enfoque é o corpo técnico que atua no dia a dia do campo, dando assistência nas propriedades e trazendo inovação para a ponta. O evento tem apresentado não só na teoria, mas também mostra na prática, através de ensaios experimentais de campo, os benefícios produtivos da integração desses sistemas de produção”, elencou. 

 


 Leonora Goes, mestre em Ecologia e profissional sênior do Subprograma Produção, Inovação e Mercado Sustentáveis (PIMS)  - Foto: Fernanda Fidelis/REM MT

 QUEBRANDO PRECONCEITOS

Renata Taques, coordenadora de marketing do programa de pesquisa e extensão da Universidade Federal de Mato Grosso (AgriSciences), destacou que a Vitrine Tecnológica serve para desmistificar alguns preconceitos em relação à produção pecuária e mostrar que sim: é possível produzir commodities de maneira mais sustentável. 

"Hoje, muitas das pessoas que vivem na cidade, tem uma visão equivocada, de que a pecuária só agride o meio ambiente. Mas, o que o AgriSciences tem em seu DNA como atuação, é uma pecuária de baixo impacto de emissão de carbono. Uma pecuária que trabalha com sistemas integrados, que são tipos de culturas que manejam melhor o solo, que, a partir disso, consegue sequestrar mais carbono e gerar mais sustentabilidade", detalhou.  

 


Renata Taques, coordenadora de marketing do programa de pesquisa e extensão AgriSciences - Foto: Fernanda Fidelis/REM MT

 

ORGANIZADORES DO EVENTO

O AgriScience é um dos organizadores do 4º Encontro Técnico de Atualizações, juntamente com a UFMT, Programa REM Mato Grosso, Fazenda Santa Sofia, Projeto Rural Sustentável e Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Empaer-MT).

Sobre o que é o AgriSciences, Renata explica que se trata de um projeto de pesquisa e extensão  "que conecta o campo à cidade, de forma que a pesquisa e a ciência chegue até o produtor rural, com objetivo de melhorar cada vez mais a atuação da agricultura do país".

 


Foto: Fernanda Fidelis/REM MT

 

MODELAGEM COMPUTACIONAL

Uma das pesquisas do projeto é financiada pelo REM MT, por meio do Subprograma  Produção, Inovação e Mercado Sustentáveis (PIMS). Trata-se da modelagem computacional, em que um software simula quais sementes de soja, milho e arroz se adaptam melhor ao clima e ao solo de uma determinada região. A ideia é desenvolver sementes híbridas e integrá-las à produção pecuária. Esse experimento ocorre na prática, na Fazenda Santa Sofia e será conferido de perto, no sábado (14.05), pelos participantes da Vitrine Tecnológica. 

"A gente coleta os dados dos experimentos, joga isso num modelo computacional e conseguimos fazer predições, para entender o quanto cada cultivo desse sistema vai ser benéfico, ou não, para a qualidade do solo, para a pegada hídrica, para ver o quanto de carbono vai ficar para o solo e o quanto que vai para atmosfera, ou seja: a gente consegue estudar a sustentabilidade a longo prazo, desses sistemas, a partir da coleta de dados desses experimentos, fazendo previsões futuras daqui há 10 ou 20 anos", explica Wininton da Silva, engenheiro agrônomo extensionista da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer-MT).

 

Winiton da Silva, extensionista da Empaer-MT. Foto: Fernanda Fidelis/REM MT

 

Segundo os especialistas, a modelagem computacional pode fornecer os arranjos corretos, garantindo o "aumento da qualidade do solo, o aumento de produtividade, sem aumento de custo de produção, e num enfoque para o produtor ter mais lucro, sem a necessidade de ter que desmatar novas áreas". 

 

PROGRAMAÇÃO INTENSA

O 4º Encontro Técnico de Atualização  segue com a programação de palestras nesta quinta (12) e sexta-feira (13). Já no sábado, ocorrerá o segundo evento, que será a 4ª Vitrine Tecnológica, onde os produtores vão presenciar na prática algumas das tecnologias que foram abordadas pelos especialistas, em especial, os experimentos de sistema integrado de lavoura-pecuária, que ocorrem na fazenda Santa Sofia, e que são apoiados pelo REM MT. 

 

Por Marcio Camilo e Fernanda Fidelis / REM MT 

 

 

On the day that International Women's Day is celebrated (March 8), REM Mato Grosso (from English, REDD for Pioneer) talks with women who are in strategic professional positions in preserving the environment in the state. Each in their own way, they tell their stories of overcoming to make a difference in the struggle to keep the forest standing.

 

Sensitivity

Lawyer Mauren Lazzaretti is at the head of the Secretary of State for the Environment (Sema-MT) - one of the most important portfolios of the Government of Mato Grosso. As a woman, Mauren understands that the effort is doubled, as she has to develop excellent work, while at the same time seeking a balance with her personal life.


Secretary Mauren surveys the area of ​​deforestation in the Colniza region, in the extreme northwest of Mato Grosso. Credit: Mayke Toscano/Secom-MT

“For us women, giving up family and health is always very sacrificing. So, every day we have to make a huge effort to try to make all these actions compatible, continue to maintain serenity, and also remain sensitive people. Because this is what sets women apart, the ability to have empathy, sensitivity, care, dedication and promptness in those actions we do”, highlights the manager.

She also points out that, most of the time, she is highly respected by her co-workers at Sema-MT. However, she considers that the Environment is still a predominantly male space.


Secretary commands men during an operation to combat illegal deforestation in the state. Credit: Mayke Toscano/ Secom-MT

 

“So, it is inevitable that in some places I still experience situations of discrimination. Sometimes it's that behavior of doubt about your role or your competence or condition of doing a good job in front of an agency like Sema, which has such a relevant role for the State”, assesses Mauren.

 

Resilience and emotional intelligence

The biologist and coordinator of the REM MT Program, Lígia Vendramin, also had to go through these prejudices of structural machismo. Many times, she says that she was upset with harassment in the work environment, but that didn't stop her from moving on.

“I built a lot of resilience and developed emotional intelligence from these bad experiences. That was the way I found to face machismo”, highlights Lígia.


Lígia Vendramin, coordinator of REM MT. Credit: Secom-MT

In Mato Grosso, the REM MT is one of the main State policies in the fight against illegal settlement, especially in the Amazon. Therefore, she emphasizes that being in charge of a program of this magnitude is challenging, regardless of gender, but the fact of being a woman helps her to deal with very different situations that the position requires.

“I think that women, as a rule, have a very refined sensitivity. And it helps to face different types of situations with people of different opinions and ideologies. And REM MT has precisely this characteristic, as we dialogue with different audiences: from commodity producers to indigenous communities, for example,” she highlights.


Lígia (center) receives Environmental Protection Merit Medal - one of the highest honors of the Police Battalion
Military Environmental Protection (BPMPA) of Mato Grosso. Credit: BPMPA

Reference

In Cotriguaçu, in the Northwest region of Mato Grosso, we have the environmental engineer Silvana Inês Fuhr. The success of the extractive activity in the region passes directly through her hands, who was the author of the Cutiando project, supported by REM MT, which brought new funding possibilities to the Association of Brazil Nut Collectors of PA Juruena (ACCPAJ).

Currently, the project makes it possible for the association to buy equipment to process its nuts and in this way add even more value to the product that is already sold nationwide.


Silvana Fuhr, environmental leader in the Cotriguaçu region. Credit: Personal Archive.

Today Silvana is established as an environmental engineer, in one of the regions most pressured by deforestation in the state. But it was not always so. She remembers her first important job, when she had to face a lot of prejudice, including from women, and male gazes of disapproval in a profession occupied mostly by men.

“When I spoke at the first meeting, the women involved in the project commented: wow! she knows how to speak… How can she speak?! I studied hard to know what I know. Already some male colleagues made mean comments about me to the boss whenever they had the opportunity. It's a good thing my boss, at the time, was always an enlightened person and didn't get carried away by it,” she recalls.


Silvana guides extractive family in the Northwest of Mato Grosso. Credit: Personal Archive

Indigenous protagonism

Machismo also crosses the professional trajectory of teacher Kaianaku Kamaiura. She was always one of the few women who participated in political meetings in the Indigenous Land of the Kamaiura people, in Alto Xingu-MT. Her role ended up bothering many people in her own community.

Kaianaku Kamaiura is one of the main indigenous leaders of Fepoimt. Credit: Personal Archive

“The meetings were always led by the chiefs and there was very little participation by women. At that time my husband also worked at school, he was a teacher, but his family did not accept that I was in a higher position than his. I faced a lot of hardship, such as slander and accusations against my reputation. She was seen as a vulgar woman for being in the midst of men. I ended up breaking up,” she reports.

Kaianaku always faced prejudices head-on and continued to carry out projects to change the social reality of his people. So much effort was worth it. In recent years, she has been invited to occupy a series of important positions, including the Superintendence of Indigenous Affairs of the Civil House of Mato Grosso, in 2018. She is currently one of the main leaders of the Federation of Indigenous Peoples and Organizations of Mato Grosso (Fepoimt), occupying the position of technical advisor for team management.

Kaianaku during the 2021 United Nations Climate Change Conference in Glasgow, Scotland. Credit: REM MT

“My trajectory is marked by discrimination, for the simple fact that I was a woman. But today I feel much stronger, because there are many of us and we are conquering spaces traditionally occupied only by men. Machismo will always exist. That's why we women really need to be committed to each other. To unite when one of our people is attacked, because the roots of machismo are very deep in non-indigenous society and it is reproduced by us indigenous as well”, argues the Kamaiura leader.

 

by Marcio Camilo / REM MT 

No dia em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher (8 de março), o REM Mato Grosso (do inglês, REDD para Pioneiro) conversa com mulheres que estão em posições profissionais estratégicas na preservação do meio ambiente no estado. Cada uma a seu modo, elas contam suas histórias de superação para fazer a diferença na luta para manter a floresta em pé. 

 

Sensibilidade 

A advogada Mauren Lazzaretti está à frente da secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) - uma das pastas mais importantes do Governo de Mato Grosso. Por ser mulher, Mauren entende que o esforço é dobrado, pois ela tem que desenvolver um trabalho de excelência buscando, ao mesmo tempo, um equilíbrio com a vida pessoal. 

 

 

Secretária Mauren vistoria área de desmatamento na região de Colniza, no extremo Noroeste de Mato Grosso. Crédito: Mayke Toscano/Secom-MT 

 

“Para nós mulheres, abdicar da família e da saúde é sempre muito sacrificante. Então, todos os dias nós temos que fazer um esforço enorme para tentar compatibilizar todas essas ações, continuar mantendo a serenidade, e nos mantermos também pessoas sensíveis. Porque isso é o diferencial das mulheres, a capacidade de ter empatia, sensibilidade, cuidado, dedicação e presteza naquelas ações que nós fazemos”, destaca a gestora. 

Ela ressalta ainda que, na maioria  das vezes, é muito respeitada pelos colegas de trabalho na Sema-MT. No entanto, pondera que o Meio Ambiente ainda é um espaço de predominância masculina. 

 

Secretária comanda homens durante operação de combante ao desmatamento ilegal no Estado. Crédito: Mayke Toscano/ Secom-MT 

 

“Então, é inevitável que em alguns locais eu ainda passe por situações de discriminação. Às vezes é aquele comportamento de dúvida sobre o seu papel ou da sua competência ou condição de estar fazendo um bom trabalho à frente de um órgão como a Sema, que tem um papel tão relevante para o Estado”, avalia Mauren.  

 

Resiliência e inteligência emocional

A bióloga e coordenadora do Programa REM MT, Lígia Vendramin, também teve que passar por esses preconceitos do machismo estrutural. Por muitas vezes, conta que se chateou com os assédios no ambiente de trabalho, mas nem por isso deixou de seguir em frente.

 

“Criei muita resiliência e desenvolvi inteligência emocional a partir dessas experiências ruins. Essa foi a maneira que eu encontrei de encarar o machismo”, destaca Lígia.

 

Lígia Vendramin, coordenadora do REM MT. Crédito: Secom-MT

 

Em Mato Grosso, o REM MT é uma das principais políticas de Estado no combate ao destamento ilegal, em especial na Amazônia. Por isso, ela destaca que estar a frente de um programa dessa magnitude é desafiador independente da questão de gênero, mas o fato de ser mulher lhe ajuda a lidar com situações muito diversas que o cargo exige. 

“Penso que as mulheres, via de regra, possuem uma sensibilidade muito apurada. E isso ajuda a enfrentar diferentes tipos de situações com pessoas de opiniões e ideologias diversas. E o REM MT tem justamente essa característica, pois dialogamos com diferentes públicos: do produtor de commodities a comunidades indígenas, por exemplo”, destaca. 

 

Lígia (centro) recebe Medalha Mérito Protetor Ambiental - uma das mais altas honrarias do Batalhão de Polícia Militar de Proteção Ambiental (BPMPA) de Mato Grosso. Crédito:BPMPA

 

Referência

Em Cotriguaçu, região Noroeste de Mato Grosso, temos a engenheira ambiental Silvana Inês Fuhr. O sucesso da atividade extrativista da região passa diretamente pelas mãos dela, que foi a autora do projeto Cutiando, apoiado pelo REM MT, que trouxe novas possibilidades de financiamento para Associação de Coletores(as) de Castanha do Brasil do PA Juruena (ACCPAJ). 

Atualmente, o projeto possibilita que a associação compre equipamentos para beneficiar suas castanhas e dessa forma valorizar ainda mais o produto que já é comercializado em nível nacional. 

 

Silvana Fuhr, liderança ambiental na região de Cotriguaçu. Crédito: Arquivo Pessoal.

 

Hoje Silvana está estabelecida como engenheira ambiental, em uma das regiões mais pressionadas pelo desmatamento no Estado. Mas, nem sempre foi assim. Ela lembra do seu primeiro trabalho importante, quando teve que enfrentar muito preconceito, inclusive de mulheres, e olhares masculinos de reprovação numa profissão ocupada majoritariamente por homens. 

“Quando falei na primeira reunião, as mulheres envolvidas no projeto comentaram: nossa! ela sabe falar… Como assim sabe falar?! Eu estudei muito para saber o que sei. Já alguns colegas homens faziam comentários maldosos sobre mim para a chefia, sempre que tinham oportunidade. Ainda bem que meu chefe, à época, sempre foi uma pessoa esclarecida e não se deixou levar por isso”, recorda. 

 

Silvana orienta família extrativista no Noroeste de Mato Grosso. Crédito: Arquivo Pessoal

 

Protagonismo indígena

O machismo também atravessa a trajetória profissional da professora Kaianaku Kamaiura. Ela sempre foi uma das poucas mulheres que participava das reuniões políticas na Terra Indígena do povo Kamaiura, no Alto Xingu-MT. Seu protagonismo acabou incomodando muita gente da própria comunidade. 

Kaianaku Kamaiura é uma das principais lideranças indígenas da Fepoimt. Crédito: Arquivo Pessoal

“As reuniões eram sempre lideradas pelos caciques e tinha muito pouca participação de mulheres. Naquela época o meu esposo também trabalhava na escola, era professor, mas a família dele não aceitava que eu estivesse num posto superior ao dele. Enfrentei muita dificuldade, como calúnias e acusações contra minha reputação. Era vista como uma mulher vulgar por estar no meio dos homens. Acabei me separando”, relata.

Kaianaku sempre enfrentou os preconceitos de cabeça erguida e continuou tocando projetos para mudar a realidade social de seu povo. Tanto esforço valeu a pena. Nos últimos anos, ela foi convidada para ocupar uma série de cargos importantes, entre eles o da Superintendência de Assuntos Indígenas da Casa Civil de Mato Grosso, no ano de 2018. Atualmente ela é uma das principais lideranças da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), ocupando cargo de assessora técnica de gestão de equipes.  

 

Kaianaku durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021,  na cidade de Glasgow, na Escócia. Crédito: REM MT

“Minha trajetória é marcada pela discriminação, pelo simples fato deu ser mulher. Mas hoje me sinto muito mais forte, porque somos muitas e estamos conquistando espaços tradicionalmente ocupados só por homens. O machismo sempre vai existir. Por isso, nós mulheres, precisamos realmente estar compromissadas entre a gente. Para nos unirmos quando uma de nossas for atacada, porque as raízes do machismo são muito profundas na sociedade não indígena e é reproduzida por nós indígenas também”, argumenta a liderança Kamaiura.



Por Marcio Camilo

 

 

 

Por Marcio Camilo

As florestas são grandes prestadoras de serviços para a humanidade. Desde a água que bebemos até a madeira que vira casa, os alimentos, as substâncias medicinais por meio das plantas... Tudo isso são considerados serviços ambientais. E é por essas e outras razões que é fundamental mantermos a floresta em pé. Conservá-la, porém, não é uma tarefa fácil, por envolver uma série de interesses e fatores econômicos. Por isso, foi criado o mecanismo de REDD+: Redução de Emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento e degradação florestal [REDD]. Já o sinal de “mais”, significa “manejo florestal sustentável, conservação e aumento dos estoques de carbono”.

 

Crédito: Marcos Vergueiro/Secom MT

A sigla extensa, a princípio, soa complicado, mas, basicamente, o mecanismo de REDD+ “premia com recursos financeiros países e estados, que reduzam o desmatamento de forma efetiva, atacando as suas causas e seus principais vetores e respeitem as Salvaguardas Socioambientais, produzindo além de benefícios climáticos, benefícios socioambientais às populações locais”, destaca Luiz Tegon, analista ambiental da Coordenadoria de Mudanças Climáticas da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT).

 

Salvaguardas

 

As Salvaguardas, citadas por Tegon, são medidas que visam garantir que os efeitos do REDD+ sejam positivos à conservação ambiental e às comunidades locais. 

 

“Elas são o coração do REDD+. Devem antecipar os riscos e estabelecer medidas para mitigar e lidar com os impactos adversos associados a determinadas atividades”, ressalta o especialista. 

 

No Brasil, Mato Grosso é um dos contemplados pelo mecanismo de REDD+, que no Estado ganhou a denominação de REM MT (do inglês, REDD para pioneiros). O pagamento por resultados se deu principalmente pela redução histórica que o governo promoveu entre os anos de 2004 a 2014. 

Salvaguardas ambientais visam garantir respeito aos povos indígenas. Crédito: Jana Pessôa/Setas-MT 

 

Nesse período, o Estado saiu de um patamar de 11.814 km² desmatados para 1.048 km². Em linhas gerais, a redução foi de mais de 90% dos desmatamentos nas florestas, evitando que 1,9 toneladas de dióxido de carbono fossem lançadas na atmosfera. 

 

O pagamento de resultados dado a Mato Grosso pelos bons índices foi na ordem de 44 milhões de euros (equivalente a 240 milhões de reais). O valor foi repassado pelos governos da Alemanha e Reino Unido, que incentivam pelo mundo práticas de REDD+. 

 

Mas, pela regra, Mato Grosso só continua recebendo os pagamentos por resultados de REDD+ se permanecer com taxas de desmatamento abaixo do gatilho de performance, que é de 1.788 km²/ano (correspondente à média histórica entre os anos de 2006 a 2015). O gatilho é aferido pelo PRODES [Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal] do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

 

Pagando pelos serviços da floresta

 

Desde então, o Governo do Estado, por meio do Programa REM MT, tem utilizado esses recursos para combater o desmatamento ilegal, em especial na Amazônia, e para financiar projetos que incentivem comunidades locais (pecuaristas, extrativistas, agricultores familiares, indígenas e comunidades tradicionais) a continuar mantendo a floresta em pé.  

 

Os recursos do REM MT financiam, por exemplo, a Associação de Coletores (as) de Castanha do Brasil do PA Juruena (ACCPAJ), que fica na região Noroeste de Mato Grosso, no município de Cotriguaçu, a 1.200 quilômetros da capital Cuiabá. Trata-se de uma das regiões da Amazônia mais pressionadas pelo desmatamento.

Coletoras e coletores de castanha do Brasil na amazônia mato-grossense. Crédito: ACCPAJ

 

Por lá, 39 famílias extrativistas usam os serviços ambientais da floresta sem precisar derrubá-la, gerando bioeconomia, renda e emprego para a região. A associação vende as castanhas por meio de sacas às grandes agroindústrias, situadas em estados, como São Paulo, Goiás e Rondônia. Cada lote negociado com as empresas, pode chegar até a 70 toneladas, que são transportadas em caminhões.

 

Combate ao desmatamento ilegal

 

No combate ao desmatamento, os recursos do REM MT possibilitaram a aquisição de um moderno sistema de monitoramento por satélite de toda cobertura vegetal do Estado. 

 

Esse sistema oferece, em tempo real, um panorama detalhado sobre os principais pontos de desmatamento das florestas de Mato Grosso. É a principal base de dados do setor de fiscalização da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), ajudando o estado a reduzir em mais de 21% os alertas de desmatamento na Amazônia.

 

Combate aos incêndios florestais

 

Os recursos também ajudam no combate aos incêndios florestais por meio da aquisição de computadores de última geração para detectar de forma mais rápida os focos de calor. Houve ainda a compra de drones, tables, bombas costais e Equipamentos de Proteção Individual [EPIs] para os bombeiros e bombeiras atuarem na mata, no combate direto às chamas.

Recursos do REM MT ajudam no combate aos incêndios florestais. Crédito: Mayke Toscano/Secom-MT

 

Há três anos que o Programa  REM fortalece as respostas aos incêndios florestais em Mato Grosso. Essa política continuada já gerou investimentos na ordem de R$ 4 milhões aos órgãos de fiscalização, nesse período.

 

Povos indígenas 

 

Marcos Ferreira, coordenador do Subprograma Territórios Indígenas (STI) do REM MT ressalta que outra importante ação do Programa ”foi o reconhecimento e repartição dos benefícios recebidos pelo Estado com os povos indígenas”.

 

Ele explica que aproximadamente “12% da área de Mato Grosso é composta por terras indígenas”. E acrescenta que “essas áreas possuem os ecossistemas mais preservados em função do modo de vida e cultura desses povos, contribuindo sobremaneira com o ciclo das chuvas, regulação do clima e imobilização de CO2”. 

 

Benefícios climáticos, econômico e sociais

 

Tegon, da Coordenadoria de Mudanças Climáticas da Sema, destaca que Mato Grosso é um dos pioneiros de REDD+ no Brasil, visto que instituiu o mecanismo em 2013, por meio da lei 9.878/13, construída no Fórum Mato-grossense de Mudanças Climáticas.

 

A construção da Lei contou com representantes de organização dos setores agropecuário e florestal, agricultura familiar, movimentos sociais, organizações não governamentais, especialistas, instituições de ensino, Assembleia Legislativa, Sema e demais secretarias de governo.

Conferência do clima será realizada na Escócia. Crédito: Top View

A queda da taxa de desmatamento, a governança do sistema de REDD+ e a estratégia PCI [Produzir, Conservar e Incluir] possibilitou que o governo captasse os recursos de REDD+ por meio do Programa REM Mato Grosso, que passou a vigorar como política pública ambiental no combate ao desmatamento no Estado, a partir de 2019.  

 

“Em suma, o REM MT [REDD+] é um mecanismo que tem como um dos objetivos a manutenção da floresta em pé, promovendo benefícios climáticos, econômicos e sociais, principalmente das populações que vivem da floresta”, sintetiza Tegon.

Mato Grosso na Conferência do Clima

O Governo de Mato Grosso se prepara para apresentar os bons resultados de mecanismos de REDD+, por meio do REM MT, na Conferência do Clima, a COP-26. O evento será sediado em Glasgow, na Escócia, de 31 de outubro a 12 de novembro. Na oportunidade, também serão apresentadas 12 ações para que o Estado tenha as suas emissões  de Gases de Efeito Estufa neutralizadas até 2035.

Entre as medidas, estão: a manutenção do ativo florestal do estado, o manejo florestal sustentável, a regularização fundiária, melhorias na gestão de áreas protegidas, reflorestamentos comerciais, restauração de florestas, redução do risco de incêndios, manejo sustentável para a produção agropecuária, proteção de vegetação secundária em áreas de desmatamento legal, recuperação de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta e produção e consumo de biocombustíveis.


































Por Marcio Camilo

No campo, elas representam mais de 40% da mão de obra agrícola nos países em desenvolvimento, de acordo com os dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Não é à toa que, cada vez mais, elas ocupam cargos estratégicos na agricultura familiar, na pecuária e no extrativismo. Por isso, em homenagem ao Dia Internacional Internacional da Mulher Rural, que é comemorado nesta sexta-feira (15.09), o Programa REM Mato Grosso [Redução das Emissões de Gases Estufa por Desmatamento, do inglês, REDD para Pioneiros] traz dois exemplos que ilustram muito bem essa representatividade feminina na zona rural mato-grossense, em postos historicamente ocupados por homens. 

É o caso de Veridiana Vieira, 40 anos, que é presidenta de uma associação nacionalmente conhecida pela venda de castanhas do Brasil e de Rochelle Beltramin, 39, que se tornou uma fazendeira de sucesso no ramo da pecuária de corte.  

Um espírito inquieto

Desde muito jovem, Veridiana sempre foi inconformada com as condições precárias em que se encontravam muitos agricultores e agricultoras familiares na pequena cidade de Cotriguaçu, região amazônica ao Noroeste de Mato Grosso, a 952 quilômetros da capital Cuiabá. Da infância, lembra do pai percorrendo distâncias de 20 quilômetros do sítio até a cidade para entregar frutas e hortaliças. “Era uma vida muito sofrida. Pensava comigo: por que a agricultura familiar não consegue ter melhores condições? Por que a gente não consegue gerar uma boa renda?”, questionava-se.

Essa inquietude sempre acompanhou Veridiana e foi muito importante para a fundação da Associação de Coletores e Coletoras de Castanha do Brasil do PA Juruena (ACCPAJ). Se hoje a associação é referência em extrativismo florestal não madeireiro no Brasil, com potencial de produção de mais de 280 mil quilos de castanha, muito se deve ao pioneirismo de Veridiana, que foi a primeira coletora da ACCPAJ.

Hoje o caminho está aberto. Muitas mulheres são coletoras ou compõem a diretoria da associação. Mas nem sempre foi assim: “os coletores diziam que as mulheres no mato só iriam atrapalhar a coleta. Com muita insistência e diálogo, nós provamos o contrário, que com o casal na floresta a produção rende muito mais. Que as mulheres são aplicadas, 

disciplinadas e podem ser excelentes coletoras, tanto quanto os homens”, conta.

                                                                                                               Veridiana Vieira, presidenta da ACCPAJ. Crédito: ICV

“Muitas mulheres aprenderam o ofício e hoje adentram na floresta amazônica para coletar as castanhas, que caem do pé e ficam espalhadas pela mata.  As amêndoas estão protegidas por uma casca muito dura, que a gente chama de ouriço. Para acessá-las é preciso romper essa proteção. Então, nós utilizamos facões para quebrar o ouriço, e só assim, finalmente coletar as castanhas. É um trabalho pesado, que envolve força braçal, mas também muita técnica. Ao longo dos últimos anos, mostramos que somos muito boas nisso”, garante.

Caso de sucesso

Veridiana sempre esteve à frente no processo de constituição da ACCPAJ. Em 2006, ela já fazia parte do grupo de 8 pessoas que um dia ousou em fazer extrativismo sustentável em uma das regiões da Amazônia que mais sofre pressão por desmatamento. 

A associação foi formalizada em 2012 e o pequeno grupo se transformou em 39 famílias, que hoje fazem a coleta das amêndoas no interior das fazendas parceiras da ACCPAJ. As castanhas são colhidas de maneira individual, por cada família, e encaminhadas para o barracão de beneficiamento da associação. Já a venda do produto é coletiva, por meio de leilões, cujas remessas variam de 60 mil a 80 mil quilos de castanha. É um evento que sempre gera grandes expectativas nos compradores nacionais e até do exterior. 

Financiamento

Para coroar o trabalho, no ano passado às coletoras e coletores do Juruena tiveram seu primeiro projeto de financiamento de produção sustentável aprovado, enquanto associação constituída. Trata-se do projeto ‘Cutiando - castanha e sustentabilidade na região noroeste de  Mato Grosso’, aprovado por meio do edital de chamadas do Programa REM MT.

 

                                                                                                Veridiana comanda o trabalho dos coletores em busca das castanhas pela floresta amazônica. Crédito: ICV

O Cutiando é financiado pelo REM com objetivo de fortalecer ainda mais a associação com a compra de uma série de máquinas - a exemplo da autoclave, secadores e peneirão para a pré-limpeza das amêndoas - que irão agregar ainda mais valor ao produto da ACCPAJ.   

O projeto ajudará no aumento exponencial do valor do quilo da castanha, que atualmente é comercializado entre 6 e 8 reais pela associação. Com o produto industrializado pelos próprios coletores e coletoras, a amêndoa será comercializada na faixa dos 30 a 50 reais o quilo. Em algumas situações, dependendo da safra, esse valor pode chegar a 150 reais. “Essa é uma das grandes realizações da associação. Com esse projeto, iremos potencializar e agregar valor ao nosso produto”, comemora Veridiana.

Referência na pecuária de corte

Outro caso de quebra de paradigmas é de Rochelle Verlaine Beltramin, que possui três propriedades rurais de pecuária de corte no município de Novo Bandeirantes, no extremo Norte de Mato Grosso, a quase mil quilômetros da capital Cuiabá. 

Hoje ela é uma produtora admirada e que se tornou referência na região. Mas, no passado, já enfrentou muita resistência e preconceito de outros fazendeiros que achavam que criação de gado não era coisa de mulher. Muitos desses que a criticaram no início, hoje são admiradores de seu trabalho. 

“Tive dificuldades para comprar os imóveis, pois quando os fazendeiros se deparavam com uma mulher na negociação, alguns desistiam da venda ou cobravam preços mais altos”, recorda.

                                                                                                                         Fazendeira Rochelle Beltramin, referência na produção de pecuária de corte no Portal da Amazônia. (Crédito: Arquivo pessoal)

Fazendeira Rochelle Beltramin, referência na produção de pecuária de corte no Portal da Amazônia. Crédito: Arquivo pessoal

Nos eventos agropecuários, também costumava ser questionada pelos homens porquê estava ali: “Perguntavam se eu era mulher de fazendeiro ou se tinha herdado a propriedade de meu pai. Por muitas vezes respondi que não, que fui eu mesma quem comprei as propriedades. Eu sou a dona do negócio”, respondia. 

Em meados dos anos 2000, quando Rochelle decidiu comprar as fazendas, ela tinha acabado de ser mãe e negociava os imóveis entre uma amamentação e outra. “Eu terminava de visitar uma propriedade e corria para casa para dar de mamar ao meu bebê. Depois, eu seguia para visitar outra propriedade e assim suscessivamente”, relata.

Tanto trabalho valeu a pena. Ela conseguiu comprar a última das três fazendas em 2014, e desde então não parou mais, sempre pensando em novas soluções e alternativas para que o negócio prospere ainda mais. “É claro que antes de tomar uma decisão final procuro ouvir especialistas de cada setor. Não tenho essa de querer resolver as coisas de maneira isolada ou centralizada. Acredito que quanto mais gente participando desse processo melhor”, explica Rochelle, que é responsável por toda a parte administrativa das fazendas.

Hoje, entretanto, ela acredita que alguns preconceitos estão sendo superados.“ Sinto que os produtores já me tratam com muito mais respeito, pois, a partir do momento que você começa a dialogar e mostrar que entende do assunto, as diferenças vão sumindo, e fica algo mais natural. Já não se trata de homem e mulher, mas de duas pessoas da área discutindo em pé de igualdade sobre os assuntos do campo”. 

Para a fazendeira, quanto mais mulheres protagonistas no campo, melhor para a pecuária. “Nós somos cuidadosas com as coisas que fazemos. Somos detalhistas e dedicadas. O setor só tem a ganhar com a nossa participação cada vez mais efetiva nesses espaços de poder e tomadas de decisão”, afirma.

Fazendas sustentáveis

As propriedades de Rochelle estão inseridas no projeto Conect@gro: conectando conhecimento e boas práticas, do Instituto Centro de Vida (ICV). A iniciativa faz parte do rol de  projetos financiados pelo REM MT e trabalha com a questão da sustentabilidade em 15 fazendas voltadas para a produção de pecuária de corte. Os imóveis são de pequeno e médio porte, entre 300 a 1.500 hectares, e estão localizados na região Norte de Mato Grosso (Portal da Amazônia), em cidades como Alta Floresta, Colíder, Paranaíta e Carlinda. 

No Conect@gro o trabalho é focado na gestão das propriedades nos aspectos econômico, social e ambiental. O objetivo é produzir com qualidade, gerar lucro, sem a necessidade de degradar novas áreas para abertura de pastos. 

Veja o vídeo com depoimentos das duas:

 

 

 

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