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Mato Grosso é o estado com melhor desempenho na fiscalização de alertas de desmatamento florestal, de acordo com a primeira leva de levantamentos do Monitor da Fiscalização do Desmatamento - a mais nova plataforma online do MapBiomas, uma rede colaborativa formada por ONGs, universidades e empresas de tecnologia, com objetivo de preservar o meio ambiente.

Nessa primeira rodada foram analisados os alertas de desmatamento, produzidos pelo MapBioamas, em Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Pará e São Paulo. Um dos objetivos da plataforma é verificar quanto desses alertas foram fiscalizados pelos cinco estados, e Mato Grosso, de longe, está com o melhor desempenho, com 40,9% de área fiscalizada, de um total de 546, 3 mil hectares analisados. Em seguida vem Minas Gerais (34,6%), Goiás (24,8%), São Paulo (26,3%) e, por último, Pará, com apenas 9,8% de área fiscalizada com alertas de desmate. 

Para a coordenadora do Subprograma Fortalecimento Institucional do REM MT, Franciele Nascimento, o bom desempenho de Mato Grosso se deve aos investimentos promovidos pelo Governo do Estado nos últimos anos na prevenção e combate ao desmatamento ilegal, envolvendo os biômas da Amazônia, Cerrado e Pantanal. 

"O destaque de Mato Grosso com a melhor resposta de autuação/fiscalização dos alertas de desmatamento se deve primeiramente ao esforço dos Agentes de Fiscalização, tanto no planejamento como na execução e na incorporação como política de estado. E ainda ao Programa REM MT, que proporcionou condições de trabalho às equipes, com entrega de equipamentos, serviços e tecnologia de ponta", avalia a gestora. 

Uma das tecnologias proporcionadas pelo REM MT foi a aquisição de um sistema de satélites que permitiu o monitoramento em tempo real das áreas desmatadas no Estado. Tal fator, conforme Franciele, potencializou as ações de fiscalização dos agentes de campo da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), e dos batalhões de Polícia Ambiental e de Emergências Ambientais, com aumento significativo de aplicação de multas, apreensões, embargos, interdições, entre outras medidas para impedir o dano ambiental. 

Sobre o Monitor da Fiscalização do Desmatamento, a gestora destaca que se trata de uma ferramenta fundamental, que tem objetivo de monitorar o desmatamento, bem com a resposta que o Poder Público está dando no combate aos  crimes ambientais

“Ter esses dados sistematizados e disponibilizados ao público é crucial para acabar com a sensação de impunidade. Além do mais, com a plataforma, a sociedade passa a acompanhar os alertas e a cobrar uma resposta mais efetiva do Poder Público no combate ao desmatamento ilegal”, enfatiza a coordenadora do Fortalecimento Institucional do REM MT.  

Aumento de 396%

Os dados do MapBiomas também dão uma noção da evolução da fiscalização da Sema-MT, antes e depois do Programa REM MT. Em 2018, quando o Programa ainda não estava em atividade, o Governo do Estado emitiu 850 infrações ambientais, relacionadas à destruição da vegetação nativa. Já no primeiro ano de atividades do REM MT, em 2019, as infrações subiram para 1.346; no segundo ano, mesmo diante da pandemia de Covid-19, houve a lavratura de 2.840 infrações. Mas, o auge mesmo ocorreu no ano passado, com o registro de 4.216 autos de infração ambiental. No total, entre 2018 e 2021, a Sema-MT aumentou em 396% seu poder de fiscalização, a partir do apoio do REM MT.

 

Por Marcio Camilo

 coordenadora do REM MT, Lígia Vendramin, apresentou, nesta terça-feira (10.05), as ações do Programa aos nove secretários de Estado de Meio Ambiente, que compõem a Amazônia Legal. Os gestores estão reunidos em Cuiabá para pensar ações estratégicas de preservação e combate ao desmatamento ilegal. Nesse contexto, a estrutura do REM MT foi apresentada como um dos casos de sucesso da Sema-MT, no combate ao desmatamento e incêndios florestais em Mato Grosso. 

Um dos pontos da apresentação que mais chamou atenção do secretário do Amazonas, Eduardo Costa Taveira, foi a gestão financeira do REM MT, que não é atrelada às contas públicas do Governo de Mato Grosso.

"Isso dá muito mais agilidade para que os projetos sociais cheguem lá na ponta para beneficiar as comunidades locais", destacou.

Secretários de Meio Ambiente, Eduardo Taveira (Amazonas) e Mauren Lazzaretti (Mato Grosso). Foto: Marcos Vergueiro/Secom-MT

Nesse sentido, Lígia acrescentou que o REM MT foi estruturado por meio de uma governança própria, composta de um conselho específico e com a participação da sociedade civil organizada.

"Isso permite manter a organização do planejamento original do Programa, sem intervenções adversas”,  ressaltou. 

Para o secretário-executivo de Estado de Meio Ambiente, Alex Marega, o REM MT, juntamente com o Instituto Produzir, Conservar e Incluir (PCI) são um dos pilares do Estado no combate ao desmatamento. 

"Somado ao REM MT e a PCI, nós temos o monitoramento via-satélite em tempo real e o sistema de Cadastro Ambiental Rural (CAR) de Mato Grosso, que é considerado um dos mais modernos do país. São essas ferramentas que têm despertado o interesse dos demais secretários de Meio Ambiente da Amazônia Legal, que estão aqui [Cuiabá] nessa imersão, para conhecer de perto as nossas ações de combate ao desmatamento ilegal e incêndios florestais", enfatizou o gestor.

Durante o encontro, os secretários também conheceram o Centro de Comando da Fiscalização da Sema-MT - espaço que integra servidores para planejar as ações de fiscalização e operações integradas com outros órgãos. Eles  também visitaram a sala onde funciona a estrutura do Programa REM MT.

Secretários da Amazônia Legal visitam escritório do REM MT que fica dentro da estrutura da Sema-MT. Foto: Marcio Camilo/REM MT

As atividades desta terça, fazem parte do encontro de dois dias do Fórum de Secretários da Força Tarefa de Governadores para o Clima e Florestas (GCF-Task Force). Estão em Mato Grosso, os secretários de Meio Ambiente  do Acre, Maranhão, Rondônia, Amapá, Roraima, Amazonas, Pará e Tocantins.

 

Por Marcio Camilo

Na comunidade quilombola de Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento (MT), a relação com a banana é tão forte que ela deixa de ser um mero alimento. Ela é a cultura de um povo, é o próprio quilombo. Estão espalhadas pelos mais de 40 quintais de sistemas tradicionais de cultivo da comunidade e cercadas por uma mata exuberante dos biomas Pantanal e Cerrado. Tem bananal que chega a ter mais de 4 mil pés. Um horizonte a se perder de vista. A agricultura no lugar é ancestral, que existe e resiste ao longo dos tempos, gerando assim, espécies únicas e aprimoradas de mudas e sementes, conhecidas como crioulas.

“Esse tipo de plantação eu aprendi com o meu pai, que aprendeu com o meu avô, que aprendeu como o meu tataravô. A gente cresce sabendo que é assim que tem que fazer”, diz Oildo Ferreira da Silva, de 43 anos. Ele é uma das lideranças quilombolas da comunidade Mata Cavalo, que fica distante a 50 quilômetros da capital de Mato Grosso, Cuiabá. 

Da banana colhida, parte vai para o alimento da comunidade, que conta com mais de 160 famílias; e a outra serve como geração de renda. De produto in natura, ela se transforma em doce de rapadura, doce cristalizado e na réstia de banana - que faz um tremendo sucesso durante as festas na comunidade e no comércio da região. A réstia são balinhas envolvidas e trançadas em folhas de bananeira. Além de muito saborosas, elas simbolizam o trabalho sustentável da comunidade e sua relação intensa com a banana. A fruta também se transforma nas crocantes bananas chips, embaladas em saquinhos: “Êpa! Chips não! A nossa, vamos chamar de banana fatiada. Esse nome aí [chips] a gente não reconhece", destaca Oildo, ao se queixar do estrangeirismo.

 

Produtos derivados da banana. Da esquerda para direita: a réstia de banana, a rapadura de banana e a balinha açucarada de banana. Foto: Marcio Camilo/REM MT

 

Fábrica de beneficiamento

A banana fatiada de Oildo, na verdade, representa um pensamento coletivo dos quilombolas de Mato Cavalo, de levar seus produtos para além dos balcões dos bares e pequenas mercearias de Nossa Senhora do Livramento e cidades do entorno. Um objetivo que fica cada vez mais próximo, a partir da chegada dos equipamentos de beneficiamento, que irão possibilitar a produção da banana fatiada - e de tantos outros produtos quilombolas - de forma escalonada.

“Rapaz, quando tudo estiver funcionando, vai ser só jogar a banana na máquina que ela vai sair toda fatiada. Se atualmente a gente leva de três a quatro dias para fazer mil saquinhos de banana, com os equipamentos vamos fazer essa mesma quantidade em um dia!”, comemora Oildo.

Oildo mostra o espaço onde funcionará a fábrica de beneficiamento comunitário de Mata Cavalo. A Fábrica está sendo montada com recursos do REM MT. Foto: Marcio Camilo/REM MT

E todos os equipamentos já estão na comunidade, acomodados no local onde será a fábrica de beneficiamento comunitário. Além do cortador elétrico, há a máquina seladora, o liquidificador industrial, o tacho, a despolpadeira, o forno elétrico, a panificadora e a fritadeira, todos financiados pelo Programa REM Mato Grosso (do inglês, REDD para Pioneiros), a partir do projeto Muxirum Quilombola, da Associação da Comunidade Negra Rural Quilombo Ribeirão da Mutuca (Acorquirim).

Equipamentos que irão beneficiar a banana e os outros produtos quilombolas do projeto Muxirum. Foto: Marcio Camilo/REM MT

“Nós também produzimos pão e, em breve, iremos trabalhar com a farinha de bocaiúva e o óleo de babaçu, que é muito procurado por empresas de fora do estado e até mesmo de fora do país. O bom nisso tudo é que os equipamentos também servirão para processar e beneficiar essas outras culturas produzidas pela gente, afirma Wilson Ferreira, o irmão de Oildo, e membro da Acorquirim.

Wilson Ferreira é uma das lideranças de Mata Cavalo. Foto: Marcio Camilo/REM MT

Para que a fábrica esteja em pleno funcionamento só falta a energia elétrica. Situação que está sendo negociada com a Energisa - empresa que faz a distribuição de energia no estado. “Se tudo der certo, a fábrica começa a funcionar ainda neste ano”, reforça Laura Ferreira, irmã de Oildo e Wilson, e coordenadora do projeto Muxirum Quilombola.

Diversidade

A banana pode ser o carro-chefe, mas na comunidade Mata Cavalo tem de tudo um pouco. Basta caminhar pela comunidade e reparar que as roças nos quintais das casas, feitas a partir do Muxirum - ritual coletivo de plantio dos quilombolas - estão repletas de milho, arroz, mandioca, abóbora, cará, quiabo, maxixe, mamão, limão, poncã e cana de açúcar. Além dos quintais produtivos, os barus, pequis e as exuberantes palmeiras de babaçu completam a paisagem da comunidade de Mata Cavalo, indicando também que há um grande potencial para o extrativismo sustentável envolvendo esses produtos da sociobiodiversidade.

Mata nativa do Cerrado e Pantanal interage com os quintais florestais dos quilombolas. Foto: Marcio Camilo/REM MT

 

Tais fatores chamaram a atenção de Marcos Balbino, ao analisar a viabilidade do projeto Muxirum, que foi apresentado ao REM MT pela associação Arcorquirim. Balbino é o coordenador do Subprograma Agricultura Familiar de Povos e Comunidades Tradicionais (AFPCTs) do REM MT, que atualmente financia a iniciativa dos quilombolas de Mata Cavalo.

“Me emociono ao falar desse projeto, porque acredito que ele é um dos mais completos da primeira chamada. Em seus objetivos gerais e específicos, ele prevê a força coletiva da comunidade, a experiência dos mais velhos, com a vitalidade da juventude, o protagonismo das mulheres, o manejo florestal em harmonia com a natureza, bem como o fortalecimento econômico da comunidade, a partir da comercialização das diferentes culturas que vêm dos quintais florestais desses agricultores e agricultoras. E nesse bojo, o projeto também pretende desenvolver as cadeias de valor do extrativismo”, destaca.

O Coordenador do AFPCTs do REM MT, Marcos Balbino, e a integrante do Muxirum, Iolanda Silva, fazem ajustes técnicos/administrativos do projeto. Foto: Marcio Camilo/REM MT

Manejo sustentável ancestral

Quem também visitou Mata Cavalo foi o engenheiro florestal Leonardo Vivaldini, da Secretaria de Estado e Agricultura Familiar (SEAF). Ao observar um plantio de milho todo cercado por mata nativa, ele chamou atenção para o tipo de manejo florestal que é feito no lugar: uma prática ancestral, fundamental para manter a floresta em pé.

“Penso, que além de apoiar às tecnologias novas, que ajudam a potencializar a produção e o comércio das roças comunitárias de Mata Cavalo, o apoio do REM MT, por meio do Muxirum, também serve para manter e fortalecer a agricultura tradicional ancestral dos quilombolas, que une árvores nativas, espécies agrícolas e sistema de rotação dessas áreas da agrobiodiversidade. É um cultivo que dialoga e respeita o tempo da natureza. Que permite que a terra descanse por quase 10 anos, antes de receber os plantios. Essa lógica de descanso faz com que o solo recupere todos os seus nutrientes de maneira natural. E, dessa maneira, eles vão fazendo esse revezamento, plantando em uma área e conservando a outra”, destaca.

Projeto amplo

Na verdade, Mata Cavalo é apenas uma das comunidades visadas pelo Muxirum, que, ao todo, pretende beneficiar mais de 500 famílias quilombolas da Baixada Cuiabana (Livramento e Poconé), do Médio-norte (Barra do Bugres) e Sudoeste do Estado (Cáceres).

“O objetivo maior do Muxirum é o fortalecimento das atividades econômicas, produtivas e comerciais dos produtos quilombolas, a partir do manejo sustentável da biodiversidade e a valorização social e cultural das comunidades inseridas no projeto”, destaca Laura Ferreira, a coordenadora do Muxirum. 

Laura Ferreira, coordenadora do projeto Muxirum, e uma das principais lideranças de Mata Cavala. Foto: REM MT

Ao todo, o Programa REM MT investe no Muxirum R$ 1,5 milhão, para colocar as diferentes atividades do projeto em prática. Os recursos são administrados pelo Fundo Brasileiro para Biodiversidade (Funbio), que é o gestor financeiro do REM MT.

O projeto faz parte da Chamada 03.2020 de editais da AFPCTs, que atualmente financia 22 projetos que atuam nos três biomas de Mato Grosso (Amazônia, Cerrado e Pantanal), e que são focados na preservação ambiental, transformação social e geração de renda das famílias.

No momento em que este artigo é escrito, a COP26 em Glasgow encaminha-se para suas negociações finais. Cinco anos após o Acordo de Paris, quando os países apresentaram suas contribuições nacionalmente determinadas (as NDCs), esperava-se um aumento da ambição de todos para evitar ou pelo menos mitigar a crise climática que se instala. Aguardemos.

A COP é também o momento em que aparecem os mais diversos anúncios, de setores, empresas, países, relacionados à agenda do clima. Vimos anúncios importantes, incluindo o Brasil como signatário, como o compromisso com a eliminação do desmatamento até 2030 e o da redução em 30% das emissões de metano. E vimos outros como a eliminação gradativa do uso de carvão mineral por alguns países.

Entre os dias 1 e 7 deste mês, uma delegação de Mato Grosso participou de diversas agendas em Glasgow na COP26. A delegação incluiu além do Governador Mauro Mendes e da Secretária de Meio Ambiente Mauren Lazzaretti, membros do alto escalão do poder executivo, além de membros do Legislativo, e do Judiciário do Estado.

Três pontos sobre o contexto de Glasgow com profundas repercussões em Mato Grosso, um estado com grande área florestal mas também o maior produtor de commodities do país: primeiro, nunca a agenda de Florestas esteve tão presente em uma COP. O papel das florestas em mitigar mudanças climáticas está finalmente reconhecido e integrado nas agendas de atores públicos e privados. Segundo: isso implica que a pressão por desvincular a produção de commodities de desmatamento vai cada vez mais estar presente em regulamentações e políticas que estão sendo anunciadas e planejadas. Em terceiro, é preciso reconhecer que a valorização da floresta passa também pela precificação do carbono e a regulamentação desse mercado. O que resultará das discussões sobre o Art. 6 do Acordo de Paris são um ponto crucial da COP 26.

                                                                    Fotos REM-MT 



O que Mato Grosso levou para a COP?

 

Ambição: O Governador Mauro Mendes lançou o MT Carbono Neutro 2035, um plano para atingir emissões líquidas zero em Mato Grosso nos próximos 15 anos.

Compromisso e ação pública: O Estado tem um novo Plano de Prevenção e Controle de Desmatamento e Incêndios Florestais, e colocou a tolerância zero à ilegalidade no centro da sua política ambiental. Aliando investimentos, tecnologia e ação no campo, vem colhendo resultados melhores do que outros estados amazônicos na redução do desmatamento. Ao mesmo tempo é também onde mais avança a implementação do Código florestal.

Estratégia territorial: A Estratégia Produzir, Conservar e Incluir de Mato Grosso é um instrumento para conciliar as agendas publica, privada e da sociedade civil em busca do desenvolvimento sustentável de seu território. A PCI é um compromisso (cujas metas integram a agenda de descarbonização do Estado), uma parceria público privada com uma governança participativa, incluindo em municípios e territórios no estado, e também um mecanismo financeiro para apoiar investimentos verdes no Estado. A PCI identificou gaps de financiamento na transformação da paisagem de Mato Grosso, e já tem captadas inúmeras parcerias com financiadores e empresas ligadas à implementação de suas metas, e consequente redução de riscos para cadeias produtivas e investimentos privados.

REDD+: Mato Grosso tem um Sistema de REDD+ jurisdicional em pleno funcionamento. O Programa REDD Early Movers financiado pelo governo alemão e co-financiado pelo governo britânico é importante não só por apoiar as ações institucionais do Estado na conservação e as populações que ajudam a manter a floresta em pé. Ele é importante por demonstrar a capacidade do estado em executar um Programa de REDD com registro e contabilidade de carbono, governança, repartição de benefícios e monitoramento de salvaguardas. O REM também incluiu o mais amplo processo
de consulta a povos indígenas já feito na Amazônia para políticas de REDD+.

                                                                       Fotos REM-MT



O que Mato Grosso conseguiu na COP?

O principal ponto aqui é o papel de estados subnacionais e sua ambição em relação à agenda do clima. Em tempos em que a reputação internacional do Brasil anda em baixa, e onde o governo federal é acusado de “pedalada” climática, os Estados passam a ter papel fundamental no diálogo e na ação. Mato Grosso conseguiu se colocar em diversos espaços como um dos principais entes subnacionais na agenda do clima, não só no Brasil, mas globalmente. Mato Grosso conseguiu não só o reconhecimento pelos seus esforços como a continuidade de parcerias e investimentos no Estado.

Com a pressão aumentando nas cadeias produtivas, empresas, traders, indústria e varejo passam a enxergar a importância de abordagens territoriais para redução de risco. Diálogos da PCI com a Tropical Forest Alliance, Consumer Goods Forum Forest Positive Coalition, Soft Commodities Forum, Conserv, Investors Policy Dialogue on Deforestation, Inovative Finance for Amazon, Chaco and Cerrado e outros abriram inúmeras possibilidades de colaboração visando intervenção e investimentos no território para uma transição sustentável, com investimentos concretos em 2022.

Mato Grosso também ofereceu a possibilidade real do setor privado apoiar a transformação da paisagem no Estado através do mercado de carbono. Para isso, existe hoje a possibilidade real de empresas financiarem a agenda da PCI através do Sistema Estadual de REDD em pagamentos por resultados alcançados. Mato Grosso também foi pré aprovado, em esforço liderado pela Secretaria de Meio Ambiente pela LEAF, como um estado apto a receber propostas de uma coalizão que representa empresas e governos dispostos a investir US$ 1 bilhão em créditos de carbono de alta qualidade para financiar a transição climática.

O Estado hoje tem ambição, liderança política, governança participativa, uma ideia exata das ações necessárias e investimentos para alcançar suas metas, modelos e mecanismos financeiros para implementação, além do engajamento de produtores, empresas e da sociedade civil. Aproveitar as oportunidades é questão de diálogo e trabalho a partir de agora. Mas temos todos os instrumentos que o mundo procura para demonstrar que um desenvolvimento inclusivo de baixo carbono é possível. Estamos como diz o ditado com a faca e o queijo nas mãos.

 

                                                                   Fotos REM-MT

 

 

Fernando Sampaio é Diretor Executivo na Estratégia Produzir, Conservar, Incluir - Mato Grosso.

 

 

Por Marcio Camilo

No campo, elas representam mais de 40% da mão de obra agrícola nos países em desenvolvimento, de acordo com os dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Não é à toa que, cada vez mais, elas ocupam cargos estratégicos na agricultura familiar, na pecuária e no extrativismo. Por isso, em homenagem ao Dia Internacional Internacional da Mulher Rural, que é comemorado nesta sexta-feira (15.09), o Programa REM Mato Grosso [Redução das Emissões de Gases Estufa por Desmatamento, do inglês, REDD para Pioneiros] traz dois exemplos que ilustram muito bem essa representatividade feminina na zona rural mato-grossense, em postos historicamente ocupados por homens. 

É o caso de Veridiana Vieira, 40 anos, que é presidenta de uma associação nacionalmente conhecida pela venda de castanhas do Brasil e de Rochelle Beltramin, 39, que se tornou uma fazendeira de sucesso no ramo da pecuária de corte.  

Um espírito inquieto

Desde muito jovem, Veridiana sempre foi inconformada com as condições precárias em que se encontravam muitos agricultores e agricultoras familiares na pequena cidade de Cotriguaçu, região amazônica ao Noroeste de Mato Grosso, a 952 quilômetros da capital Cuiabá. Da infância, lembra do pai percorrendo distâncias de 20 quilômetros do sítio até a cidade para entregar frutas e hortaliças. “Era uma vida muito sofrida. Pensava comigo: por que a agricultura familiar não consegue ter melhores condições? Por que a gente não consegue gerar uma boa renda?”, questionava-se.

Essa inquietude sempre acompanhou Veridiana e foi muito importante para a fundação da Associação de Coletores e Coletoras de Castanha do Brasil do PA Juruena (ACCPAJ). Se hoje a associação é referência em extrativismo florestal não madeireiro no Brasil, com potencial de produção de mais de 280 mil quilos de castanha, muito se deve ao pioneirismo de Veridiana, que foi a primeira coletora da ACCPAJ.

Hoje o caminho está aberto. Muitas mulheres são coletoras ou compõem a diretoria da associação. Mas nem sempre foi assim: “os coletores diziam que as mulheres no mato só iriam atrapalhar a coleta. Com muita insistência e diálogo, nós provamos o contrário, que com o casal na floresta a produção rende muito mais. Que as mulheres são aplicadas, 

disciplinadas e podem ser excelentes coletoras, tanto quanto os homens”, conta.

                                                                                                               Veridiana Vieira, presidenta da ACCPAJ. Crédito: ICV

“Muitas mulheres aprenderam o ofício e hoje adentram na floresta amazônica para coletar as castanhas, que caem do pé e ficam espalhadas pela mata.  As amêndoas estão protegidas por uma casca muito dura, que a gente chama de ouriço. Para acessá-las é preciso romper essa proteção. Então, nós utilizamos facões para quebrar o ouriço, e só assim, finalmente coletar as castanhas. É um trabalho pesado, que envolve força braçal, mas também muita técnica. Ao longo dos últimos anos, mostramos que somos muito boas nisso”, garante.

Caso de sucesso

Veridiana sempre esteve à frente no processo de constituição da ACCPAJ. Em 2006, ela já fazia parte do grupo de 8 pessoas que um dia ousou em fazer extrativismo sustentável em uma das regiões da Amazônia que mais sofre pressão por desmatamento. 

A associação foi formalizada em 2012 e o pequeno grupo se transformou em 39 famílias, que hoje fazem a coleta das amêndoas no interior das fazendas parceiras da ACCPAJ. As castanhas são colhidas de maneira individual, por cada família, e encaminhadas para o barracão de beneficiamento da associação. Já a venda do produto é coletiva, por meio de leilões, cujas remessas variam de 60 mil a 80 mil quilos de castanha. É um evento que sempre gera grandes expectativas nos compradores nacionais e até do exterior. 

Financiamento

Para coroar o trabalho, no ano passado às coletoras e coletores do Juruena tiveram seu primeiro projeto de financiamento de produção sustentável aprovado, enquanto associação constituída. Trata-se do projeto ‘Cutiando - castanha e sustentabilidade na região noroeste de  Mato Grosso’, aprovado por meio do edital de chamadas do Programa REM MT.

 

                                                                                                Veridiana comanda o trabalho dos coletores em busca das castanhas pela floresta amazônica. Crédito: ICV

O Cutiando é financiado pelo REM com objetivo de fortalecer ainda mais a associação com a compra de uma série de máquinas - a exemplo da autoclave, secadores e peneirão para a pré-limpeza das amêndoas - que irão agregar ainda mais valor ao produto da ACCPAJ.   

O projeto ajudará no aumento exponencial do valor do quilo da castanha, que atualmente é comercializado entre 6 e 8 reais pela associação. Com o produto industrializado pelos próprios coletores e coletoras, a amêndoa será comercializada na faixa dos 30 a 50 reais o quilo. Em algumas situações, dependendo da safra, esse valor pode chegar a 150 reais. “Essa é uma das grandes realizações da associação. Com esse projeto, iremos potencializar e agregar valor ao nosso produto”, comemora Veridiana.

Referência na pecuária de corte

Outro caso de quebra de paradigmas é de Rochelle Verlaine Beltramin, que possui três propriedades rurais de pecuária de corte no município de Novo Bandeirantes, no extremo Norte de Mato Grosso, a quase mil quilômetros da capital Cuiabá. 

Hoje ela é uma produtora admirada e que se tornou referência na região. Mas, no passado, já enfrentou muita resistência e preconceito de outros fazendeiros que achavam que criação de gado não era coisa de mulher. Muitos desses que a criticaram no início, hoje são admiradores de seu trabalho. 

“Tive dificuldades para comprar os imóveis, pois quando os fazendeiros se deparavam com uma mulher na negociação, alguns desistiam da venda ou cobravam preços mais altos”, recorda.

                                                                                                                         Fazendeira Rochelle Beltramin, referência na produção de pecuária de corte no Portal da Amazônia. (Crédito: Arquivo pessoal)

Fazendeira Rochelle Beltramin, referência na produção de pecuária de corte no Portal da Amazônia. Crédito: Arquivo pessoal

Nos eventos agropecuários, também costumava ser questionada pelos homens porquê estava ali: “Perguntavam se eu era mulher de fazendeiro ou se tinha herdado a propriedade de meu pai. Por muitas vezes respondi que não, que fui eu mesma quem comprei as propriedades. Eu sou a dona do negócio”, respondia. 

Em meados dos anos 2000, quando Rochelle decidiu comprar as fazendas, ela tinha acabado de ser mãe e negociava os imóveis entre uma amamentação e outra. “Eu terminava de visitar uma propriedade e corria para casa para dar de mamar ao meu bebê. Depois, eu seguia para visitar outra propriedade e assim suscessivamente”, relata.

Tanto trabalho valeu a pena. Ela conseguiu comprar a última das três fazendas em 2014, e desde então não parou mais, sempre pensando em novas soluções e alternativas para que o negócio prospere ainda mais. “É claro que antes de tomar uma decisão final procuro ouvir especialistas de cada setor. Não tenho essa de querer resolver as coisas de maneira isolada ou centralizada. Acredito que quanto mais gente participando desse processo melhor”, explica Rochelle, que é responsável por toda a parte administrativa das fazendas.

Hoje, entretanto, ela acredita que alguns preconceitos estão sendo superados.“ Sinto que os produtores já me tratam com muito mais respeito, pois, a partir do momento que você começa a dialogar e mostrar que entende do assunto, as diferenças vão sumindo, e fica algo mais natural. Já não se trata de homem e mulher, mas de duas pessoas da área discutindo em pé de igualdade sobre os assuntos do campo”. 

Para a fazendeira, quanto mais mulheres protagonistas no campo, melhor para a pecuária. “Nós somos cuidadosas com as coisas que fazemos. Somos detalhistas e dedicadas. O setor só tem a ganhar com a nossa participação cada vez mais efetiva nesses espaços de poder e tomadas de decisão”, afirma.

Fazendas sustentáveis

As propriedades de Rochelle estão inseridas no projeto Conect@gro: conectando conhecimento e boas práticas, do Instituto Centro de Vida (ICV). A iniciativa faz parte do rol de  projetos financiados pelo REM MT e trabalha com a questão da sustentabilidade em 15 fazendas voltadas para a produção de pecuária de corte. Os imóveis são de pequeno e médio porte, entre 300 a 1.500 hectares, e estão localizados na região Norte de Mato Grosso (Portal da Amazônia), em cidades como Alta Floresta, Colíder, Paranaíta e Carlinda. 

No Conect@gro o trabalho é focado na gestão das propriedades nos aspectos econômico, social e ambiental. O objetivo é produzir com qualidade, gerar lucro, sem a necessidade de degradar novas áreas para abertura de pastos. 

Veja o vídeo com depoimentos das duas:

 

 

 

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